O Dia Em Que Choveu Fogo – Parte 2/5

A primeira parte pode ser encontrada aqui.

Apercebendo-se de que estava a deixar-se dominar pelo pânico, abriu os olhos e forçou-se a respirar normalmente. Arriscou mais um olhar ao céu. Havia bombardeiros enormes, com um motor em cada asa. A acompanhá-los voavam unidades mais pequenas, com uma única hélice e de asas arqueadas.
Por instinto, outra explosão fê-lo encolher-se na sua toca. O ataque foi sucedido por múltiplos rebentamentos. Concluiu que estavam a arrasar as linhas defensivas da cidade, das quais fazia parte.
Passara um mês desde que fora chamado e tanto tinha mudado desde essa altura. Relembrava-se que fora um jovem cheio de convicções. Pensara que iria para a guerra para ser coberto de heroísmo e ajudar a repelir a ofensiva dos malditos Fritzes. Salvaria a cidade e o seu amor e, no fim, tudo ficaria bem. Infelizmente, a realidade era muito mais amarga do que os seus piores receios. Haviam-lhe dado somente uma pá e tivera de cavar valas durante dias a fio. De soldado não tinha nem treino, nem equipamento. Cobria-o ainda a roupa esfarrapada com que se apresentara na recruta.
O coração falhou-lhe uma batida ao pensar na sua querida Nastja. Desde que a conhecera, em Maio, que a sua vida dera uma volta enorme. Havia algo nela que o atraía e prendia, como se um véu de mistério a rodeasse. Tinham partilhado momentos fugazes e intensos. Não conseguia deixar de corar ao recordar a última noite que tinham passado juntos. Tinham feito amor naquele velho sótão de madeira abandonado, a melhor experiência da sua vida. Não queria morrer ali. Não havia olhar mais belo, nem nome mais bonito que o de Anastasia. Queria voltar para a sua amada, são e salvo. Desejava poder, mais uma vez, dormitar no seu regaço. Isso seria a sua maior felicidade.
Os pensamentos foram interrompidos pelo deflagrar de mais cargas explosivas. Encolheu-se ainda mais no buraco, como se isso pudesse aumentar as suas hipóteses de sobrevivência. Sentia-se impotente. Seria diferente se ao menos pudesse combater o inimigo cara-a-cara. Eram cobardes e dependiam das suas máquinas infernais para ganhar vantagem. De certo que não seriam tão corajosos em terra. Dava tudo para ter oportunidade de os enfrentar numa luta corpo-a-corpo.
O clamor de outra explosão fez-se ouvir tão perto que lhe deixou um zumbido nos ouvidos. Nesse instante, foi coberto com terra e detritos. Pensou que iria ficar soterrado, mas, felizmente, a quantidade não fora suficiente para tal. Ao inspirar, as suas vias respiratórias foram invadidas pela poeira que circulava no ar. Tossiu violentamente, tentando limpar a garganta. Os olhos lacrimejavam fortemente. Novas explosões fizeram-se sentir segundos depois.
Nos minutos que se seguiram, permaneceu encurvado na trincheira, coberto de terra. De súbito, tal como tinha começado, o ataque terminou. Os motores dos aviões e os rebentamentos só se ouviam à distância.
– Soldados, formar! – ouviu o seu tenente ordenar.
Alexey abriu os olhos a medo e não viu nenhuma aeronave no ar. Sacudiu a terra e ramos de tomate seco que se tinham acumulado sobre a sua cabeça, antes de se levantar e aproximar dos restantes.
Ao caminhar pelo terreno, deu-se conta das inúmeras crateras deixadas pelas bombas inimigas. Aqui e ali estavam corpos despedaçados. O cheiro a queimado infestava o ar. Evitou olhar demais, já que não queria vomitar o almoço. A bateria anti-aérea sumira e apenas um buraco com destroços espalhados em volta atestavam a sua existência. Os aviões alemães continuavam a sobrevoar o céu, fazendo-o essencialmente sobre a cidade. Sem se demorar mais, juntou-se ao grupo, permanecendo na última fila e em sentido.
– Mas que raio! Faltam aqui soldados. Tu aí, sabes contar? Conta-me os mortos e feridos. Rápido! – comandou o jovem, escolhendo um soldado da primeira fila.
Alexey olhou para a farda quase nova do seu tenente. Apesar de sujo, aquele uniforme assentava perfeitamente naquele corpo cheiinho. A barba rara denunciava a sua idade e inexperiência. Pertencer a um extracto superior da sociedade tinha a vantagem de se poder frequentar a academia militar. Todos tinham de servir a Terra-mãe, a diferença é que a maioria o fazia como soldados rasos, sem direitos nem regalias.
– Meu tenente, contei 18 feridos e 14 mortos – reportou o rapaz receoso.
– Faltam aqui mais de 50 recrutas! Se eles não estiverem de volta até ao pôr-do-sol, serão considerados desertores!
O comandante olhou para os seus soldados. Houve quem prendesse a respiração, antecipando uma punição severa.<
– Nós somos uma das primeiras linhas de defesa da cidade. Os alemães estão perto e a qualquer momento poderão chegar à nossa posição. Em breve chegarão armas e rações, economizem-nas, pois não sei quando voltaremos a ter mais. Há dúvidas?
Como resposta, obteve um silêncio pesado.
– Vamos, soldados! Não vamos deixar que Estalinegrado caia! As nossas famílias moram ali – exclamou, apontando para a cidade. – Não podemos deixar que os alemães lhes ponham as mãos em cima. Eles irão violar as nossas mães e irmãs. Irão matar os nossos pais e saquear as nossas casas. Querem apoderar-se do nosso país e reduzir-nos à escravidão.

Este conto continua aqui.

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