Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura – parte 4/7

A primeira parte está disponível aqui.

A terceira parte pode ser encontrada aqui.

 

Espiritualidade

 

A vivência da religião alterou-se grandemente no último século. À primeira vista é fácil concordar com esta afirmação, dando como exemplo que ainda não se contam muitos anos desde que, nas zonas rurais, os homens assistiam à missa separados das mulheres. Contudo, não é desse tipo de alterações que se pretende discutir aqui, já que a ligação entre espiritualidade e religião é cada vez mais ténue e não se pretende redigir um tratado sobre a adaptação das religiões à passagem do tempo.
Aparte da vivência social, a experiência pessoal da espiritualidade tem-se alterado gradualmente. As pressões consumistas e as distracções providenciadas pela auto-estrada da informação furtam tempo que anteriormente era dedicado à vida espiritual. O crescimento do ateísmo pode também em parte ser explicado pelo enfraquecimento da influência da igreja na sociedade, pessoas que anteriormente eram forçadas pela sociedade à participação na vida espiritual são hoje elas a influenciar para que não se tome parte. O crescimento do ateísmo não é só devido à mudança da importância da religião na sociedade, mas também à educação fortemente racional, que não admite inexplicáveis e muito menos crenças. Estas mudanças não são totalmente negativas, já que a espiritualidade deve ser sobretudo uma vivência pessoal.
Os teístas, ou os que se julgam como tal, também mudaram a sua maneira de viver a religião. Muitos são aqueles que praticam alguma religião só porque sim, sem se esforçarem por compreender os fundamentos da mesma. Vivem de ritos, que vêm como receitas que devem ser seguidas à risca e que já ninguém sabe porquê nem para quê.
O crescimento do número seitas lideradas por charlatães, burlistas e extremistas deve-se ao descontentamento com a forma com que as grandes religiões reagem à sociedade. Infelizmente, todo o clero de alto nível é semelhante à politica de alto nível, pois ambas estão imersas em corrupção, em que os factores-chave na tomada de decisões são interesses de individualidades ou elites.
A maioria subestima a importância da espiritualidade na sociedade, considerando-a como um subproduto inútil. Contudo, essa espiritualidade é um dos principais canais para a transmissão de valores entre indivíduos e até mesmo gerações. Felizmente, não é o único canal, pois inúmeros exemplos mostram-nos que é possível a transmissão desses valores por outras vias. Por outro lado, a vivência da espiritualidade aumenta a coesão da sociedade. A desagregação que sentimos hoje em dia é devida à falta dessa vivência, pois cada um está apenas focado em si e nas suas coisas.
Infelizmente a religião tem sido usada, ao longo da história, como meio de justificar incontáveis crimes. Já para não falar no oportunismo da extrema-direita em relação à coesão social gerada pela religião para cumprir as suas agendas. Um exemplo actual disso são as tensões entre cristãos e muçulmanos, que surgiram após o 11 de Setembro de 2001. A culpa dos atentados terroristas foi atribuída a um grupo fanático muçulmano e, a partir daí, a comunicação social e a demagogia política trataram de extrapolar essa convicção para todos os árabes. É fácil perceber que tudo não passa de jogos políticos e de interesses económicos, em que só uma reduzida elite lucra. Após um século de grandes mudanças a nível social, a religião oficial continua no seu lugar de sempre, feita de rituais vazios, cuja única função é o controlo da população.
Se a actual tendência for seguida, cada vez mais a religião estará vazia de significado, mais misturada com concepções políticas e usada como argumento para se realizarem actos abomináveis, tal como aconteceu no último século. A religião estará assim cada vez mais centralizada e tratará os seus fiéis como ovelhas cegas que seguirão sem questionar para onde os seus líderes lhes ordenarem.
Por outro lado, poderá haver uma ruptura. A religião poderá tornar-se mais pessoal, mais espiritual, em que cada pessoa a vive por e para si mesma. Esta vivência privada não implicará o fim das religiões oficiais nem à cessação da partilha da experiência espiritual, mas antes um soltar de amarras em relação à cabeça das mesmas que, em várias ocasiões, mostrou estar doente. Portugal já anteriormente mostrou que isso era possível.
A cada um é colocado o desafio de dar o exemplo para a vivência espiritual genuína, separando-a definitivamente dos interesses políticos e económicos.
 

A quinta parte pode ser encontrada aqui.

 

Este pequeno ensaio foi publicado no nono volume da revista Nova Águia.

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