Ensaio sobre o futuro de Portugal, do seu povo e da sua cultura – parte 5/7

A primeira parte está disponível aqui.

A quarta parte pode ser encontrada aqui.

Pensamento

 

A capacidade de pensamento crítico sofreu um declínio durante o último século. Como já referi, a disponibilidade de informação não parece contribuir para uma abertura de horizontes. É claro que a educação contribui de maneira decisiva para a castração do pensamento, contudo, o tema da educação será abordado mais à frente.
A religião, com os seus dogmas; a cultura, com a sua massificação; a sociedade com a sua alergia à mudança e a educação, com sua componente fortemente cartesiana, contribuem para o adormecimento das mentes, anestesiando-as para a realidade. Em vários momentos do século passado a intelectualidade foi fortemente reprimida por via de regimes totalitários, não só em Portugal como no resto do mundo. Nos dias de hoje, essa repressão continua de um modo implícito e não se não se notam grandes diferenças a nível qualitativo em relação ao passado. Todos podem falar, contudo, ninguém diz nada de útil, pois o comodismo e a falta de perspectiva muitas vezes impedem a maioria de contribuir para o fim deste marasmo intelectual. Tudo vale, excepto pensar por si mesmo e questionar.
Esta liberdade intelectual é muitas vezes apenas teórica. Tomando como exemplo a ciência, nem todos os tópicos são bem recebidos, pois os interesses económicos e por vezes, apenas mesquinhos, influenciam os caminhos seguidos pela mesma. Formas de pensar cartesianas, normalizadas e estandardizadas invadiram o panorama intelectual. Passa-se a mensagem de que a capacidade para se ser criativo está apenas ao alcance de alguns. A elite que nos governa não quer que criemos respostas para os problemas, pois prefere que nos voltemos para eles sempre que precisamos de soluções. Até mesmo o comum indivíduo exerce uma pressão para que não se pense diferente da norma. Desta forma a sociedade reprime toda a capacidade de renascimento intelectual. Hoje em dia, ainda é perigoso pensar diferente, pois vários rótulos podem ser atribuídos a quem o faz, desde extremista a lunático, passando por sonhador e utopista. Quando tudo isso falha, as ideias são retiradas do seu contexto para serem ridicularizadas, levando ao descrédito. Nesta sociedade, a maioria não tem uma mente livre, e os que a tem estão fechados em si mesmos, com medo da punição que a sociedade lhes reserva. Esperavam-se grandes mudanças com a queda das monarquias e dos estados totalitários, quando se assumiram estatutos em que a liberdade de pensamento e expressão era um direito fundamental, que não chegaram a acontecer.
A comunicação parece ser mais fácil nos dias de hoje do que era há cem anos atrás, por via do melhoramento dos serviços postais, da disseminação do uso do telefone e do aparecimento da Internet. Independentemente da relevância, muitos procuram passar uma mensagem, seja ela original ou não.
Contudo, falta analisar um ponto relevante. Para haver comunicação: não podemos apenas considerar o emissor, o meio e o receptor, pois a mensagem, relevância e compreensão da mesma são fundamentais. De que serve transmitir para o mundo se nenhuma das pessoas que recebe a mensagem é capaz de a entender? No fim acabamos bombardeados com informação inútil, quando as grandes ideias, problemas e questões são relegados para segundo plano, não conseguindo furar a barreira implacável da não-comunicação.
Se esta tendência se mantiver, o pensamento crítico poderá estar ameaçado. Sem aprender com os erros do passado, cada vez mais, a sociedade procura respostas naqueles que causam os problemas e cada vez mais fica satisfeita com respostas incompletas e tendenciosas daqueles que estão autorizados a pensar. Reflectir sobre a realidade é considerado fútil e, por vezes, até perigoso. Faz falta à população saber que o sonho neoliberal só funciona se a maioria estiver adormecida.
Num cenário alternativo, a maioria reaprende a pensar e não terá medo de o fazer, causando um despertar massivo primeiro de si mesmo e, consequentemente, dos restantes indivíduos. Deixariam de procurar respostas somente nos líderes e, acima de tudo, saberiam produzi-las eles mesmos, para si mesmos. Deixaria de haver medo de questionar. As consciências expandir-se-iam e interagiriam com o mundo, numa simbiose com vista ao aperfeiçoamento mútuo.
Serão os portugueses capazes de se mostrarem acordados e exprimirem o seu pensamento dualistas num mundo em que a maioria está adormecida ou, pelo contrário, irão deixar-se levar pela maré do marasmo intelectual, sendo apenas mais alguns, cada vez mais semelhantes aos restantes?
 

A sexta parte pode ser encontrada aqui.

 

Este pequeno ensaio foi escrito e publicado no nono volume da revista Nova Águia.

 

Foi comentado em: http://movv.org/2012/09/16/pedro-cipriano-a-capacidade-de-pensamento-critico-sofreu-um-declinio-durante-o-ultimo-seculo-a-disponibilidade-de-informacao-nao-parece-contribuir-para-uma-abertura-de-horizontes-e-claro-qu/

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