O Dia Em Que Choveu Fogo – Parte 1/5

Era o quarto Domingo de Agosto quando Alexey ouviu os altifalantes anunciarem o bombardeamento. O jovem não esperou que os aviões surgissem no céu azul, onde o Sol brilhava intensamente, largando a pá e atirando-se para o fundo da trincheira. Não tinha capacete nem arma, por isso só lhe restava aninhar-se e proteger a cabeça com as mãos.
– Atenção camaradas, um ataque aéreo está eminente! – repetia, ao longe e sem cessar, a gravação.
Esperou pelos ruídos de motores e pelo rebentar de explosões, mas, do buraco cavado num campo de tomates, ouviu apenas risos.
Desde o primeiro momento que achara que estava rodeado de idiotas. Era ridículo pensar que aquele bando de maltrapilhos, que nem sequer uniforme tinha, conseguiria parar a máquina de guerra nazi. Deduziu que se riam da sua reacção. Questionava-se como seria possível gozar com tal aviso e, por isso, achou melhor ignorar, permanecendo no seu refúgio.
– Então Sacha, estás com medo?
Reconheceu a voz como pertencendo a um dos rufias do batalhão. Cerrou os punhos e, de súbito, quis esmurrar a cara de quem o insultava.
– Ser soldado não é para meninas – ouviu outra voz familiar acrescentar.
Não iria deixar que gozassem com ele daquela maneira, erguendo-se para os enfrentar. Como previra, encarou um pequeno grupo de três recrutas, que o olhavam com um olhar divertido. O mais alto era o manda-chuva do gangue. Andava sempre acompanhado por um rapaz bastante musculado e de nariz achatado, que parecia sofrer de um atraso mental. Nunca tinha visto o outro rapaz, contudo o seu porte impunha igualmente respeito. À semelhança do restante destacamento, tinham entre 16 e 18 anos de idade.
– Idiotas! Vão chatear outro! Era bem-feita que os Fritzes vos apanhassem – devolveu Alexey, desistindo de uma punição física.
– Olha o pirralho! Parece que finalmente saiu debaixo das saias da mãe… – riu-se o de maior estatura.
Tal era a confiança, que nem se apercebeu do projéctil que vinha na sua direcção. A pedra atingiu-o na testa, causando-lhe um corte pouco profundo.
Ele não esperou pela reacção dos brigões, saltando para fora da vala e desatando a correr. Ao início, conseguira uma grande vantagem, já que os apanhara desprevenidos. Ao olhar por cima do ombro, viu que o líder vinha no seu encalço e que eles eram muito mais rápidos que ele.
Com muito esforço, acelerou, numa tentativa de o fazer desistir da perseguição. Ouvia o passo de corrida atrás de si, cada vez mais perto. Não havia nenhum comandante à vista e os outros soldados iriam simplesmente ignorar a situação. Estremeceu ao perceber que iria apanhar uma sova monumental.
No momento seguinte foi atirado ao chão, caindo com a face na poeira. O rufia tinha aterrado por cima dele. Lutou para sair debaixo do rapaz, numa tentativa coroada de insucesso, já que o peso do outro era suficiente para o manter ali. Sentiu que lhe agarravam e torciam o braço, imobilizando-o por via da dor.
– Vais apanhar tantas… – prometeu o rufia com traços de fúria na voz.
Quanto tentou virar a cara para enfrentar o seu adversário, o primeiro murro atingiu-o na bochecha. Apanhou mais dois, enquanto teve uma vaga percepção de que os restantes elementos se aproximavam. Sentiu que ele saía de cima de si. Ao tentar levantar-se, um poderoso pontapé alcançou a sua barriga e Alexey colapsou na poeira. Durante um momento rebolou, respirando com dificuldade. Sentiu medo ao ver as faces dos seus oponentes, fixando por uma fracção de segundo o sangue que corria copiosamente pela face do que fora atingido. A maioria dos soldados tinha-se refugiado nas trincheiras e não haviam quem os impedisse de o espancar até à morte. Tinha de lutar, tinha de pelo menos ganhar tempo. Tentou pontapear o líder, mas este recuou um passo, colocando-se fora do alcance do golpe. Os rapazes riram-se do seu coice falhado.
O som estridente de um trompete de Jericó fez-se ouvir. Algures, ali perto, um bombardeiro alemão mergulhava em direcção à sua presa. Todos tiveram consciência de que alguém iria morrer nos próximos segundos. Num abrir e fechar de olhos, os brigões abrigaram-se também, deixando-o sozinho.
O som despertou nele o mais profundo e inexplicável dos terrores. Fechou os olhos, não queria ver o que julgava ser o seu fim. Não se conseguia sequer mexer. Tremeu como uma criança enquanto uma lágrima lhe percorria a bochecha. Não queria morrer.
O som continuou durante alguns segundos, sendo, de seguida, substituído pelo ruído do motor do avião. De imediato, uma explosão ensurdecedora fez-se ouvir. A terra estremeceu e a onda de choque atravessou-o.

Abriu os olhos. Uma nuvem de poeira envolvia a bateria anti-aérea. Olhou para o céu e viu numerosos aviões. A cruz preta com contorno branco nas asas não deixava margem para dúvidas de que se tratava de aviões alemães. Não se via nenhuma aeronave soviética e a artilharia capaz de os abater estava silenciosa. Face ao poderio germânico, sentiu-se pequenino como uma formiga. Rastejou até ao buraco mais próximo e aninhou-se no fundo. Fechou os olhos e susteve a respiração em antecipação ao perigo. O coração batia a um ritmo desenfreado.

 

A segunda parte pode ser encontrada aqui.

Leia também

Deixar uma resposta