Chá de Domingo #15: O Valor de um Escritor

Dei comigo a pensar para o meus botões como é que se mediria o valor de um escritor.

O normal é valorizar-se o escritor pelo número de exemplares vendidos. Os editores ostentam esses números nas capas dos livros com todo o orgulho, como se indicasse o valor do conteúdo. Há os que vendem milhares logo na primeira semana e são catapultados para os tops, mas será isso real? Muitas vezes não é! Descobri recentemente que, com algum dinheiro, o meu livro pode tornar-se top mundial de vendas ainda antes de ser lançado, bastando pagar a uma companhia que compre os livros.
Se não é pelo número de exemplares vendidos, também não é pelo número de leitores que realmente lêem. Consigo pensar numa mão cheia de casos em que publicaram, venderam milhões, foram lidos aos milhares e nem por isso tinham qualquer mérito. E de certeza que há muito mais!
Poder-se-ia pensar no valor de um escritor pelo domínio da língua em que escreve: pela quantidade de palavras que consegue empregar, pelo uso correcto das figuras de estilo e pela inovação linguística. Valorizar um escritor só por isso, para além de ser redutor, corre-se o risco de se valorizar textos demasiado rebuscados, numa prosa púrpura totalmente intragável.
Se se valorizar só o conteúdo, corre-se o risco de se chegar a brilhantes ensaios que ninguém tem pachorra para ler. Escolher um escritor que já tenha uma grande carreira é apenas sinónimo que ele escreveu em quantidade e já se sabe que não há uma relação linear com a qualidade. Se optarmos, em exclusivo, por quem inova na forma, podemos cair em exageros ilegíveis. Claro que podemos dizer que só os clássicos têm valor, mas ai caímos no extremo da negação da inovação, sabendo que muitos clássicos só o são num determinado contexto e porque eram fora de série quando foram escritos e seriam clichés se o fossem nos dias de hoje. Por fim, apostar em autores premiados, estamos apenas a basearmos-nos no critério de júris que nem sempre são imparciais, para além de que muitos prémios atribuídos, incluindo o Nobel, tem uma certa componente política.

Assim sendo, como é que se define o valor de um escritor? Creio que é um pouco de tudo em quantidades moderadas. Qual a vossa opinião?

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2 comentários

  1. Para que temos de medir tudo? Somos assim, eu sei. É uma componente importante do nosso processamento cognitivo e ajuda-nos a estruturar, organizar e entender a realidade. Categorizar, medir, avaliar. São tarefas mentais sem dúvida importantes.

    Contudo, e na minha opinião, há coisas que não vale a pena tentar medir. Não é que não se consiga medir. Pode-se encontrar forma de medir praticamente tudo. E o valor de um escritor não é excepção. Pode-se medir o valor de um escritor, e usar métricas para tal. Poder-se-ia até fazer uma fórmula combinada e ponderada com todos os atributos que o Pedro falou. Um somatório, um integral, um diferencial, algo com logaritmos… como quisessem. E conseguiríamos de certeza obter um número, um resultado: o valor de um autor é X. Depois aferíamos em relação à média da população de escritores. E diríamos: este autor está no percentil 80 em relação à média. Ou poderíamos até comparar médias, e dizer que se encontraram diferenças significativas entre as médias dos valores do autor x e do autor y. Entendem porque não faz sentido? É também por isso que as formas actuais de medir o valor de um escritor também não fazem nenhum sentido: volume de vendas, ou prémios literários ganhos…porque no fundo, estamos a tentar medir algo para a qual não existe uma métrica válida.

    Como se mede o que o escritor provoca no leitor? Como se mede o modo como as suas palavras vão interagir com quem o lê? Como se mede o que leitor sente, e pensa enquanto lê… Ou aquilo que diz e quem sabe faz depois de o ler…? Como se mede a forma como as palavras do escritor serão recordadas ou evocadas ao longo da vida do leitor?

    É desta forma que eu penso nos “meus escritores com mais valor”. E não preciso que ninguém me diga quem são os “melhores”, porque talvez eu até prefira os “piores”…

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