Prologo alternativo para o primeiro livro da trilogia de Estalinegrado – Parte 4/4

Podem encontrar a primeira parte aqui e a terceira aqui.

 

O seu coração batia descompassadamente face à antecipação. Um nervoso miudinho tinha-se apoderado dela, nervoso esse que cresceu com cada passo que ele dava na sua direcção, ao ponto de estremecer involuntariamente quando ele lhe pegou na mão. Não conseguiu evitar corar ainda mais. O aperto de mão era firme, sem magoar, mas ao mesmo tempo caloroso. Ela sorriu desastradamente, e ele devolveu-lhe um sorriso caloroso, enquanto acenava afirmativamente com a cabeça. A outra mão juntou-se à dela, de modo a reforçar o que pareceu a Klara uma bênção de um ente superior. Era o acontecimento mais importante da sua vida. Nenhum deles disse absolutamente nada, mas os olhares cruzaram-se durante um breve instante. Então ela apercebeu-se que ele esperava que ela lhe dissesse o seu nome, à semelhança das outras. Klara sentia que todos os olhos estavam cravados nela, mas não se importou, aquele momento era só dela. Nunca imaginara ter um momento daqueles, por isso balbuciou o nome duma forma muito atabalhoada. Não era realmente importante a forma parva como tinha pronunciado o nome, acima de tudo aquele era um momento somente de ambos, pensou ela quando ele lhe largou a mão. Não voltou a olhá-la e seguiu em frente, o momento mágico de Klara tinha terminado.
― Iremos de seguida falar com os engenheiros para podermos discutir os detalhes da proposta principal. ― Anunciou Gustav, dirigindo-se para a porta traseira, abrindo-a e indicando o caminho com o braço estendido e a palma da mão aberta. ― Sigam por aqui, por favor.
Todos eles saíram, sendo Gustav o último e fechando a porta atrás de si.
Nenhum deles voltou ao escritório. Ao fim da tarde, Gustav regressou com um monte de papéis que pousou na mesa de Klara.
― Fräulein Klara, preciso que passe a limpo a acta da reunião para o arquivo. É muito importante, por isso peço-lhe que passe a ser a sua prioridade máxima até estar concluída. ― Pediu Gustav.
Klara olhou primeiro para o monte de folhas escritas à mão e depois para o seu chefe. Gustav parecia satisfeito. Ela não podia perguntar sobre a reunião, porque isso seria interpretado como vontade de saber mais do que era conveniente. De qualquer modo, pensou, devia estar tudo escrito na acta.
Assim que este saiu, todas se aglomeraram à volta da sua secretária. Tentaram deitar as mãos aos papéis para lê-los.
― Parem, ainda vão estragar alguma coisa! Eu vou passar a limpo e depois deixo-vos ler. ― Impôs Klara levantando a voz, de modo a mostrar zelo em relação ao trabalho.
― És muito egoísta! Com esse feitio nunca irás fazer muitos amigos! ― Provocou uma delas desapontada.
Klara ignorou a resposta da colega. Era verdade, ela queria ser a única a ler e, mal acabasse de passar a limpo, iria entregar tudo a Gustav imediatamente. Assim que elas voltaram aos seus lugares, Klara colocou uma folha na máquina de escrever e começou a dactilografar o conteúdo da acta.
Hitler, encorajado pelos generais das Forças Armadas Alemãs, havia pedido aos técnicos da Krupp para averiguar a possibilidade de construir uma super-arma de artilharia capaz de destruir os fortes franceses na fronteira com a Alemanha, que tinham sido recentemente construídos, tal como Klara suspeitara.
Esses fortes eram conhecidos como Linha Maginot, a qual cobria toda a fronteira entre a Alemanha e a França, começando a sul, no norte de Itália, e terminando no norte da Bélgica. Era composta por fortificações bastante modernizadas, consideradas imunes contra qualquer tipo de armamento existente. Os fortes possuíam luz eléctrica e encontravam-se ligados uns aos outros por linhas ferroviárias subterrâneas. Felizmente, a linha de fortificações era mais fraca a norte, pois os franceses não pretendiam deixar passar a mensagem que, caso houvesse problemas, a Bélgica, Holanda e Luxemburgo estariam entregues a si próprios.
Quanto à super-arma, Hitler desejava que as suas munições fossem capazes de atravessar sete metros de betão ou um metro de blindagem, atingindo um alcance muito superior a qualquer artilharia existente.
Gustav escrevera na margem da folha que, possivelmente, Hitler teria em mente uma versão actualizada da Paris-Geschütz, que fora usada durante a Primeira Guerra Mundial. Essa peça de artilharia única, conhecida por Arma de Paris, também fora construída pela Krupp e ficara famosa por conseguir atingir Paris a uma distância de cento e trinta quilómetros, algo que para a época era inigualável. Fora a artilharia com maior alcance alguma vez usada em combate até essa altura. Por infortúnio, só foi colocada em uso quando a guerra se lutava somente nas trincheiras, o que limitou a sua eficácia, sendo os alemães obrigados a usar um projéctil leve para conseguir o alcance desejado. Apesar da fraca precisão e do pouco poder destrutivo da arma, a vida em Paris estagnou temporariamente. A cidade paralisava entre cada disparo, devido ao terror da população. No entanto, ao contrário da Paris-Geschütz em que o maior dano que causara fora na moral francesa, Hitler não pretendia uma arma com uma precisão medíocre, um poder banal e um alcance extraordinário. Ele queria algo que destruísse qualquer fortaleza francesa que se atravessasse no seu caminho. Como as leis da física impediam que se melhorasse em poder destrutivo sem alterar completamente o projecto, uma nova arma teria de ser desenhada.
Apesar de todo o entusiasmo, Hitler não se comprometera definitivamente com a Krupp. Gustav acrescentou no fim da acta que esperava poder retomar os planos que o engenheiro Dr. Erich Müller havia elaborado dois anos antes, a pedido do Alto Comando do Exército Alemão. Seria, caso fosse concluída, a maior arma alguma vez feita, ultrapassando a Paris-Geschütz em todos os aspectos, excepto no alcance.
Enquanto dactilografava, Klara não conseguia deixar de pensar que talvez tivesse testemunhado um momento histórico. Lá fora, as nuvens estavam cada vez mais carregadas, sinal de que não tardaria uma tempestade.

Este prologo foi substituído por outro, já que não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.

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