O Monstro e a Musa – Parte 11/12

A primeira parte deste conto pode ser encontrada aqui e a décima parte aqui.

 

– Sim, só me dói um pouco o ombro – queixou-se com um gemido.
O cavalo havia tropeçado numa depressão do terreno. Ao palpar-lhe o ombro, percebeu que se tratava apenas de uma ligeira contusão. O maior problema era o cavalo que não se conseguiria levantar, pois tinha partido uma pata ao embater numa rocha. Eva aproximou-se dele e afagou-lhe a cabeça com carinho.
– Deixa o cavalo! – protestou o inventor.
– Cala-te! – ordenou a rapariga. – Não podemos deixá-lo aqui assim!
– O que é que queres fazer, ficar aqui até que nos apanhem?
– Não, dá-me só um momento.
Walter não respondeu, tentando tolerar as manias dela. Pouco depois, viu uma gorda lágrima a descer pela bochecha de Eva, enquanto esta afagava a cabeça do cavalo.
– Desculpa Elea – murmurou, beijando a testa da égua.
Subitamente, empunhou a faca que trazia ao cinto e, apontando ao pescoço, deu-lhe o golpe de misericórdia.
Seguiram caminho a galopar no outro cavalo. Porém, devido ao peso excessivo do par, este cansou-se rapidamente, tendo de prosseguir a trote. Quando o céu começou a clarear, estavam perto de uma vila abandonada da época do pré-Rerenascimento. Os telhados estavam caídos, carcaças de veículos antigos jaziam pelos cantos e a fauna e flora tinham invadido o espaço. Não parecia que nenhum humano ali tivesse posto os pés durante anos. O cavalo estava exausto e, por isso, consideraram que seria melhor passar o dia na cave do que fora outrora um prédio. O espaço era amplo, de modo que puderam prender o cavalo num dos pilares e instalar-se a alguma distância, para evitar o forte cheiro. Comeram restos que ela havia trazido da cozinha e adormeceram nos braços um do outro.
Walter despertou com uma voz de comando. A primeira impressão fora que a voz havia sido fabricada na sua mente. Contudo, ao ver que Eva também acordara, percebeu que estava enganado. O medo tomara conta dele, ao ponto de querer ser apenas um rato e esconder-se num canto. Ao ver a angústia no olhar dela, percebeu que não tinham saída. Paralisados pelo receio, não ousaram mexer-se, na esperança que não os encontrassem.
Tudo se revelou inútil já que, poucos minutos depois, os soldados do castro entravam no antigo estacionamento. Sem oferecer resistência, foram ambos escoltados para o exterior. Nenhum dos dois conseguiu apreciar a brisa daquela tarde de Outono. As pernas de Walter estavam como borracha, em antecipação ao momento em que iria enfrentar Artur. Apesar de saber que era apenas uma questão de tempo, suspirou de alívio ao descobrir que ele não estava naquele grupo de busca.
Durante o resto do dia, caminhou de volta para a cidade, pois não havia nenhum cavalo para ele. À noite não lhe deram nada para comer e ele sabia qual a razão. Era um homem morto. Durante a noite, não conseguiu dormir, na esperança em que houvesse uma oportunidade de fuga. Não teve sorte, já que um dos homens ficou de sentinela o tempo todo.
Eva seguia no outro extremo da fila. As vezes em que conseguira ver a sua expressão, encontrara-a sempre com os olhos vermelhos. Walter sabia que ela sofreria, mas o pai não iria castigá-la severamente. Ao fim de contas, Walter não tinha ilusões em quem Artur iria colocar as culpas.
A meio da manhã do terceiro dia, voltaram à cidade. O espírito de Walter estava completamente quebrado, pois era a segunda vez que percorria aquela rua como prisioneiro. Desta vez levaram-no para as catacumbas, por baixo do quartel militar. Trancaram-no numa cela minúscula, a qual continha somente um recipiente com água e um penico. As paredes eram de pedra nua e a luz entrava por uma fresta diminuta, que ficava acima do nível do olhar.

A parte final pode ser encontrada aqui.

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