O Monstro e a Musa – Parte 10/12

A primeira parte deste conto pode ser encontrada aqui e a nona parte aqui.

– Não! – respondeu bruscamente.
– Ainda bem – aceitou Artur, retirando-se de seguida.
O inventor não sabia se as palavras dele haviam sido sinceras. A negação fora demasiado brusca para passar despercebida. Era irrelevante, concluiu, pois ganhara tempo, que era o que mais precisava naquele momento. Achou melhor voltar aos seus aposentos.
Ao entrar, viu que Eva o esperava. Pareceu-lhe estar muito mais alegre que naquela manhã. Ela veio ao seu encontro e deu-lhe um abraço reconfortante, acompanhado de um beijo carinhoso.
– É perigoso vires aqui – protestou o inventor assim que se separaram.
– Já não faz diferença. Está tudo arranjado, deves descansar. Iremos partir ao fim da tarde.
– Qual é o plano?
– Confias em mim ou não? – devolveu ela, com um sorriso.
Dadas as circunstâncias, não sabia o que responder. Queria confiar contudo, a sua intuição dizia-lhe para ter cuidado. Detestava tomar decisões sem ter todas as informações.
– Se não confias em mim, o melhor é a nossa relação acabar aqui. Não precisamos de fugir. É mais fácil, nem sequer preciso de arriscar a minha vida por ti. Tu continuas com a tua vida e eu com a minha. Como fui parva ao achar que te preocupavas com os meus sentimentos… – escarneceu Eva, ao aperceber-se da hesitação.
– Chega! – interrompeu-a, falando num tom de voz mais elevado. – Não sabes do que falas! Se formos apanhados, os nossos destinos serão muito diferentes, vê se percebes isso! Se eu tivesse sabido quem eras desde o início, isto nunca teria acontecido.
– É isso que querias? Que a nossa relação nunca tivesse acontecido? – perguntou, com as lágrimas a galgarem-lhe as faces.
Detestava quando as conversas enveredavam por estes caminhos tão rapidamente. Por mais que lhe custasse a engolir o orgulho, não conseguia ficar zangado com ela.
– Não! – confessou, combatendo também a vontade de chorar.
Num impulso abraçou-a, apertando-a com força.
– Desculpa, eu não queria ter dito aquilo.
– Eu também não.
Esta pequena zanga fê-lo perceber que temia mais perdê-la do que a ira de Artur. Quebraram o abraço e beijaram-se apaixonadamente.
Como precisava de limar algumas arestas do plano, Eva deixou-o pouco depois.
Walter enfiou os seus parcos pertences na pasta e esperou pelo almoço. Este foi-lhe servido ao meio-dia exacto e consistia somente num peixe salgado acompanhado por um pão de trigo. Ao comer, não pôde deixar de pensar que aquela poderia ser a sua última refeição. Quando terminou, colocou o prato de lado, descalçou-se e fechou a portada. A escuridão invadiu a divisão.
Deitou-se, mas não conseguiu adormecer imediatamente. A sua mente tentava discernir qual o melhor caminho a seguir. À medida que acrescentava dados à equação, esta ia ficando mais complexa e os resultados mais confusos.
Acordou sobressaltado com duas pancadas suaves na porta. Era o sinal que ela lhe costumava dar. Levantou-se estremunhado e dirigiu-se à porta. Não falou, já que receava uma armadilha.
Num movimento, abriu a porta e deu de caras com Eva, que trazia o mesmo capuz daquela manhã. Num impulso, espreitou para o corredor e, não vendo mais ninguém, deixou-a entrar.
– Está na hora – explicou-lhe ela, estendendo-lhe outro capuz, antes de continuar. – Toma, veste isto.
O inventor obedeceu-lhe e ambos abandonaram o palácio pela escada de serviço pouco depois. Haviam sido abençoados com corredores vazios, de modo que não se cruzaram com ninguém até chegarem à rua. Deram a volta ao edifício e dirigiram-se aos estábulos.
– Vamos sair pelo portão principal antes que o fechem para a noite. Ainda pensei que podíamos sair pela antiga porta de carga, só que podia soar demasiado suspeito – revelou-lhe enquanto selava um garanhão castanho-escuro.
Ele assentiu e, uns minutos depois, atravessavam a entrada da cidade, cada um no seu cavalo, sem que ninguém os tentasse parar. Ainda nervosos, desceram a encosta do planalto, usando a mesma rota que os restantes viajantes. Sempre receosos, tomaram a direcção Sul no caminho principal. Durante um par de horas seguiram pela estrada a trote, até ao pôr-do-sol. Quando ficaram sozinhos, ao escurecer, abandonaram o caminho, seguindo a corta-mato.
Era lua nova, por isso inicialmente avançaram com cautela. Contudo, por insistência dela, desataram a galope pouco depois. Ambos queriam afastar-se tanto quanto possível da cidade antes do amanhecer. Por aquela altura, já deveriam ter dado pela sua falta. Todavia, pela primeira vez não se preocupou com isso. A sensação de liberdade apoderara-se inteiramente dele.
Inesperadamente, Eva foi projectada para a frente e Walter só teve tempo de fazer o seu cavalo parar.
– Eva! Estás bem? – perguntou ao desmontar.

A décima primeira parte está disponível aqui.

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