Chá de Domingo #66: Diálogos

Hoje vou falar sobre os diálogos.

 

Os diálogos são uma vertente muito importante de qualquer história. Com eles mostramos o que as personagens dizem entre elas e para elas próprias. O que eu vou referir é do conhecimento da maior parte de vocês, no entanto, nunca é demais relembrar.

 

1 – Cada personagem tem o seu próprio parágrafo, onde é possível incluir o que quer a personagem faça enquanto fala.

 

Um diálogo confuso em que não se sabe onde começa uma fala e termina a outra:

 

– Onde vais? – João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão. – Às corridas – Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João. – Outra vez? – João levantou-se, dobrando os dedos. – Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.

Um diálogo organizado, em que o que é dito para além das falas é praticamente inútil:

– Onde vais? – perguntou João, com nervosismo.
– Às corridas – disse Maria, tentando perceber se João estaria demasiado chateado para não conseguir escapar desta vez.
– Outra vez? – disse João, sem saber como conseguiriam pagar a renda desse mês – Nós já atingimos o limite dos nossos cartões de crédito.
2 – A informações para além dos diálogos devem conter informação relevante, mostrando ao invés de contar. Por exemplo, João perguntou com nervosismo, é um exemplo de contar. Mesmo que se escreva, João perguntou, com muito nervosismo, ou, João perguntou com tanto nervosismo que a sua voz tremia, não fará grande diferença. Como poderemos mostrar o estado mental do João sem o dizer directamente? Por inferência, dando detalhes que apontem nesse sentido e deixando o leitor fazer o resto.
Bons exemplos de como poderíamos descrever o nervosismo da personagem:
O João sentou-se.
– O- Onde vais?
– Onde vais? – gaguejou João, olhando para os sapatos.
Respirou fundo. Agora ou nunca.
– Onde vais?
Um exemplo em que a descrição foi longe demais, introduzindo demasiada informação redundante:
O João sentou-se, respirando fundo. Sabia que teria de confrontar Maria naquele momento ou nunca mais seria capaz de fazê-lo.
– Onde vais? – gaguejou, olhando para os seus sapatos.
3 – A ordem pode ter um grande impacto na história.
João pergunta a Maria onde vai e ambos parecem nervosos com o facto de ela querer ir às corridas. Uma maneira de descrever a situação é a seguinte:
– Onde vais? – João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão.
– Às corridas – Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João.
– Outra vez? – João Levantou-se, dobrando os dedos. – Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.
Mudando os parágrafos, podemos tornar a situação mais interessante, tornado a Maria mais agressiva e o João usando os cartões de crédito como desculpa:
– Onde vais?
João estalou as articulações dos dedos enquanto olhava para o chão.
– Às corridas.
Maria aproximou-se da porta, mantendo-se atenta à cabeça curvada de João.
– Outra vez?
João levantou-se, dobrando os dedos.
– Nós já atingimos o limite do nossos cartões de crédito.
No segundo exemplo, eles parecem desesperados por dinheiro e há um conflito muito mais intenso. Qual das histórias vos parece mais interessante?
Excerto traduzido a partir desta ligação.

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