Prologo alternativo para o primeiro livro da trilogia de Estalinegrado – parte 1/4

Março de 1936

 

Os murmúrios das secretárias extinguiram-se subitamente quando um silêncio pesado e tenso instalou-se.
A mudança sobressaltou Klara. Ela pousou as cartas na secretária e deixou de olhar através da janela. Ouviam-se passos no corredor, alguém devia estar prestes a entrar na sala. Tentou voltar ao trabalho pegando novamente na carta que estava no topo. Nesse momento, o patrão entrou no escritório pela porta traseira.
― Bom dia, senhor Krupp! ― Saudara-o a meia dúzia de secretárias quase em coro, esboçando um sorriso.
― Bom dia meninas! ― Respondeu-lhes Gustav num tom amigável, visivelmente satisfeito por ver as faces sorridentes das empregadas, em especial por não estarem a desperdiçar o tempo em conversas como habitualmente faziam.
Vestia o seu fato preto. Dentro do casaco vestia uma camisa branca e uma gravata da mesma cor do fato. Os sapatos eram também pretos e estavam impecavelmente engraxados. A cara era ligeiramente redonda, notando-se a falta de cabelo no topo da cabeça, o qual usava curto. Não apresentava muitas rugas, apesar dos seus sessenta e cinco anos. No entanto, as olheiras acusavam cansaço. Estava impecavelmente barbeado, à excepção dum pequeno bigode rectangular. Trazia um molho de folhas na mão direita, na qual usava também um anel de casamento. Parecia quase tão excitado com o visitante que esperava como o resto das secretárias.
Todas olharam para ele, como se esperassem algumas palavras de inspiração. Ele limitou-se a devolver um sorriso tímido, enquanto se dirigia para a saída, sempre sem parar. Não era necessário mais, todos os seus empregados sabiam que ele era quase um herói nacional.
Klara era muito nova para saber os detalhes, sendo que o que sabia fora-lhe contado pelos outros empregados, quando entrara para a empresa. Pelo que percebera, em 1923 alguns dos empregados da companhia foram mortos durante a ocupação de Ruhr, um distrito no Noroeste da Alemanha, aquando a tentativa de expulsar os soldados franceses duma das suas garagens. A morte desses trabalhadores causou uma onda de revolta popular e de actos de sabotagem. Essa onda piorou quando Gustav organizou um funeral público para as vítimas. Os franceses multaram-no e prenderam-no, o que fez dele um herói da resistência alemã contra os invasores estrangeiros, aura que ainda se mantinha intocável.
Tirou o seu sobretudo castanho do cabide e vestiu-o. Depois colocou as luvas, agarrou no chapéu em forma de coco e nas folhas, saindo de seguida. Sem sequer olhar para trás nem dizer mais nada, fechou a porta suavemente.
Apesar do estado do tempo não ajudar, esperava-se que o dia fosse muito importante para a companhia e para os seus funcionários. O acontecimento que esperavam tinha sido o tema principal de conversa entre todos, durante as últimas semanas.
No instante seguinte, todas as secretárias dirigiram-se para as janelas que davam para a entrada principal, atropelando o espaço onde Klara costumava trabalhar. Todas queriam ver o grande momento da chegada do Führer.
Lá fora só puderam ver uma chuva miudinha e as ruas molhadas de Essen. Algumas pessoas passavam em passo apressado, enquanto outras o faziam mais lentamente com os seus guarda-chuvas.
Não era a primeira vez que Adolf Hitler visitava as instalações da Krupp e, tendo em conta o clima político internacional, provavelmente não seria a última. Nesse dia, Gustav esperava conseguir alguns contractos importantes para a companhia, aproveitando-se da remilitarização da Alemanha.
Oficialmente, a companhia produzia aço e outros equipamentos derivados, especialmente após 1919 devido ao tratado de Versailles, que a proibira de fabricar artilharia. No entanto, desde meados dos anos vinte que começara o desenvolvimento de tanques de guerra, disfarçados como tractor agrícola. Nos últimos anos a sua principal actividade voltara a ser a produção de armas e munições para o exército alemão, que crescia sem parar e na qual a Krupp detinha o monopólio do fabrico de artilharia pesada, do qual não queria abdicar.
Klara não sabia mais do que o óbvio sobre os motivos da visita do Führer, com alguns rumores adicionados. Os rumores que circulavam entre as secretárias tinham começado depois destas terem lido uma carta da Wehrmacht endereçada ao director da Krupp. A carta inquiria sobre o custo da produção de peças de artilharia com certas especificações. Quando Gustav fora informado da carta, decidira imediatamente telefonar de volta de modo a clarificar alguns dos requisitos. Aparentemente, as respostas que obteve não foram totalmente esclarecedoras. Quando o assunto já não podia ser satisfatoriamente discutido por carta nem telefone, Hitler e alguns generais foram convidados por Gustav para visitar pessoalmente as instalações e ouvir o que a Krupp lhes podia oferecer.
Esse foi o ponto de partida para um enorme espaço de especulação entre os empregados. Entre as várias teorias, só havia um dado em comum: os fortes franceses que faziam fronteira com a Alemanha.
Dois carros pretos entraram juntos no caminho de acesso e pararam em frente da entrada principal. Como estavam no primeiro andar, e porque os ocupantes do carro saíram directamente para o interior do edifício, não conseguiram ver quem eram. Fez-se silêncio, na expectativa de que acontecesse algo de extraordinário.
 
 
Podem encontrar a segunda parte aqui.

 

 

Este prologo foi substituído por outro, já que não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.

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