O Planeta Cinzento

A calma daquele sistema planetário foi interrompida pela súbita chegada da pequena nave humana, vinda do hiperespaço.
– Eloin, procura por fontes de perigo. Jala, escudos ao máximo, estamos em território desconhecido. – ordenou Voska, o responsável por aquela corveta de oito lugares.
Tudo aparentava estar calmo, contudo ele sabia que as aparências muitas vezes iludiam. Havia traços de uma civilização desconhecida à volta daquela estrela.
Os monitores mostravam um pequeno planeta cinzento e azul. À sua volta, orbitava um satélite branco, escavacado por várias colisões. Os dados que recebera apontavam para uma estrela estável, em volta da qual gravitavam uma dezena de planetas. Somente este anão, da mesma cor dos uniformes dos recrutas, parecia interessar aos comandantes.
– A transformada de Fourier do espectro detectável não mostra nada de anormal. Não há picos térmicos. O gravitómetro está no zero absoluto. Estou certo de que não há aqui vida inteligente. – relatou pouco depois o jovem navegador, cuja face ainda tinha as marcas de acne.
– Verifica outra vez e corre também a busca cinética. – retorquiu o tenente, com uma rispidez exagerada.
A face afiada e séria não deixava espaço para desculpas ou protestos. Não chegara aos quarenta anos de idade sendo descuidado. Podia até ter fama de ser severo, mas fazia-o apenas para poder regressar vivo das missões que lhes eram confiadas. De olhos fixados nos ecrãs, Voska observava os dados fornecidos, em busca de sinais de perigo. À mínima suspeita, a nave estava preparada para fazer um salto quântico de curto alcance numa questão de segundos. Ao pensar nisso, olhou para Guilo, o navegador, que devolveu o olhar, transmitindo-lhe que estava atento.
– Meu tenente, acabei de analisar as emissões pelo espectrómetro. A atmosfera é respirável e o balanço de gases está perto do ideal. Os traços de radioactividade são na ordem dos nano Sievert por metro quadrado. Não há assinaturas de agentes químicos ou biológicos nocivos na atmosfera. – reportou Eloin.
– Excelente! Nilus, coloca-nos em órbita. Não faças como na última missão, em que iniciaste o processo de entrada na atmosfera. Eu quero dar umas voltas ao planeta antes de aterrar.
O objectivo destas missões era algo que não lhe fazia completo sentido. Porque haveriam de gastar tantos recursos e tempo em busca de planetas colonizados por vida inteligente? Não poderiam esperar encontrar algo que pudesse ultrapassar a tecnologia que já possuíam, já que se uma civilização se extinguira era porque não deveria ser muito avançada. Havia alguns que procuravam os locais descritos pelas lendas, mas ninguém acreditava que eles realmente existissem. Tudo somado, a sua carreira militar transformara-se numa de caçador de tesouros e mitos.
Cauteloso como era, fez a nave dar duas voltas ao equador e outra aos pólos. Os sensores continuavam a mostrar apenas os restos de uma civilização que encontrara o seu fim há vários milhares de anos.
Hesitou antes de dar a ordem para descer. Sentia um formigueiro no estômago, fruto dos nervos. Aquele planeta causava-lhe uma sensação estranha. Ainda por cima, ao atravessar a atmosfera, estariam mais vulneráveis a qualquer ameaça, pois os escudos da nave estariam enfraquecidos e não podiam usar o hiperespaço em pressões maiores do que um Hpl. Uma vez por outra, ainda tinham que enfrentar o resto das defesas planetárias dos seus antigos inquilinos.
– Estão preparados? – perguntou, olhando para cada um dos membros da sua tripulação.
As faces dos soldados dispensavam qualquer confirmação.
A corveta iniciou a sua descida oblíqua, mantendo a orientação horizontal. A estrutura da nave estremeceu com o contacto brusco com a atmosfera. Nilus conduziu-os habilmente depois de atravessarem estratosfera, usando o veículo como aeronave.
Seguindo as ordens do tenente, aproximaram-se do que parecia ser uma cidade abandonada. A paisagem parecia um deserto, coberta talvez de poeira e gravilha, causa da cor característica do planeta. As ruínas pareciam estar em bom estado, encontrando-se erguidas sem aparentarem qualquer dano devido à passagem do tempo.
Pousaram suavemente num trecho de terreno plano. Libertaram-se dos bancos e pegaram no equipamento. Ao abrirem a escotilha, foram invadidos por um silêncio desolador.
Saíram, enfrentando um dia quente. Para além de meia dúzia de insectos e algumas ervas rasteiras quase secas à sombra, tanto os sensores, como o olhar não encontravam nenhuma fonte de vida. Com os escudos ao máximo e armas em riste, dirigiram-se para o edifício mais próximo.
Era uma imensa construção de betão quadrangular, com a aparência de forte.
– A datação por C14 diz que isto tem, pelo menos, onze mil anos. – informou Eloin.
Encontraram facilmente a porta, que não parecia em nada reforçada. Estupefactos, descobriram que podiam simplesmente rodar a maçaneta para penetrar no interior. Cauteloso como era, Voska obrigou-os a procurar por armadilhas, contudo a busca não revelou nada.
Lá dentro a temperatura era muito inferior e muito pouca luz entrava naquele domínio. O ar continuava abafado. Avançaram lentamente, subindo por umas escadas que os conduziram a outra sala. Nenhum dos aparelhos alienígenas parecia funcionar, eles deduziram que lhes faltava uma fonte de energia.
Uma porta lateral levou-os a uma grande divisão, preenchida por prateleiras cheias de livros. Um pensamento divertido passou pela cabeça dos soldados – os aliens também possuíam livros.
Por impulso, Jala pegou num dos volumes e abriu-o. Incrivelmente este estava em excelente estado de conservação, pois não se desfez no processo. Ao passar os olhos pelas páginas, percebeu que estava escrito em caracteres latinos. Ainda mais extraordinário era que entendia algumas palavras. Estava muita surpreendida com o sucedido. Queria contar aos restantes, mas a grande revelação deixou-a sem fala.
O tempo de revolução e translação não era coincidência, assim como não era a arquitectura estranhamente familiar. O livro providenciara a última peça do puzzle, os mitos eram muito mais que isso. Aquele momento era histórico, a humanidade tinha finalmente reencontrado o seu planeta de origem.

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