O Pinheiro de Natal

Ouviu a voz pela primeira vez ao encinhar as bicas. Raul ergueu-se apoiado no encinho, olhando em volta. Estava certo que não havia ninguém por ali.
“Devo estar a imaginar coisas” concluiu, dobrando-se para juntar o resto das agulhas que jaziam debaixo do pinheiro manso no quintal da avó. A árvore fora plantada pelo avô há quase uma década e já tinha a altura de duas pessoas. O dia estava solarengo e nessa noite noite poderiam usá-las para apeirar o fogo no borralho. Com a forquilha, encheu o carro-de-mão.
— Espero que tenhas um bom Natal — ouviu.
O seu coração deu um salto. Conseguia visualizar o velho de bigode branco e cabelo desgrenhado. A voz corresponderia na perfeição, não fosse o avô ter morrido há mais de cinco anos. À pressa, arrumou as ferramentas junto com a palha que ficara abandonada e trancou a porta. Pegou no carrinho de mão e saiu dali o mais depressa que conseguiu.
Ao voltar para casa, assolado pelo vento frio, pensou na avó. Pela primeira vez ela iria passar o Natal longe da família devido a uma doença súbita. Talvez mais logo rezasse um terço pelas melhoras da anciã hospitalizada, que estava já perto dos oitenta anos.
Apesar de ter quase trinta anos, Raul ainda vivia em casa dos pais. Não era por querer, o ordenado que a fábrica lhe pagava não dava para arrendar nada. E estudar era só para os ricos.
Várias centenas de metros e alguns terrenos em baldio separavam as duas casas. A estrada de alcatrão velho já conhecera melhores dias. Quando caísse a noite, só metade dos postes daria luz. Raramente um veículo motorizado atravessava a rua. Aquela zona rural era o fim do mundo e, à medida que a população ia envelhecendo, ficava cada vez mais deserta.
Assim que chegou a casa, que só fora decorada com um discreto presépio, dedicou-se à tarefa de apeirar um bom fogo para a noite de Consoada.
— Não te preocupes com a avó, eu tomo conta dela.
A acha caiu-lhe das mãos, e Raul olhou em volta. Estava sozinho em casa, tinha a certeza. De onde raio teria vindo a voz?
Várias vezes tinha ouvido a avó dizer que o marido tomava conta dela mesmo depois de ter falecido. Nunca acreditara nela. Como poderia ser verdade? Só podia estar a ficar maluco! Ela ficara num estado de depressão assim que ele morrera de forma súbita. Contudo, a avó recuperara quase milagrosamente pouco depois, quando passara a achar que ele lhe falava. Ninguém se atrevia a contrariá-la.
Fechou os olhos e inspirou fundo. Fez uma cama de agulhas e sobre ela depositou uma pinha. Cobriu a construção com galhos, duas achas mais finas e um toro não rachado. Riscou um fósforo e colocou na base, deixando que o fogo apeirasse. As chamas cobriram a matéria volátil e propagaram-se rapidamente.
— Em breve estaremos os dois juntos.
Estremeceu, deixando-se ficar no mesmo sítio a observar o fogo. Imagens do casal inundaram-lhe a mente. Uma lágrima escorreu-lhe pela face.
A família chegou dos empregos pouco antes da hora normal, com os semblantes cansados. O pai nem mudou de roupa e a irmã enfiou-se num roupão, longe iam os tempos em que a Missa do Galo era insubstituível. Durante a Consoada, saborearam o bacalhau no forno que só comiam em épocas de festa, Raul nunca deixou de ouvir a voz do avô na sua mente. Eram só quatro naquela mesa nesse ano.
— Estás estranho — comentou a mãe.
— Não é nada, deve ser do cansaço — desculpou-se, de olhar fixo no prato.
À meia-noite trocaram os presentes simbólicos, quando já só restavam as brasas da fogueira. Foi nessa altura que ouviu a voz pela última vez.
— Agora estamos juntos. É o ciclo da vida. Sê feliz.
Ele interrompeu o que estava a fazer, o coração falhando-lhe uma batida. Ninguém se apercebeu.
Quando as últimas brasas perderam o seu brilho igneo, todos se foram deitar. Raul ficou na cama, durante muito tempo, a olhar fixamente para o tecto. Não conseguia deixar de pensar no que havia acontecido. Adormeceu somente de madrugada, cansado e confuso.
Acordou com o tocar do telefone. Ouviu uma troca indistinta de palavras entre o pai e a pessoa do outro lado da linha. Pouco depois, a figura paterna surgiu à entrada do quarto. Trazia abundantes lágrimas na face.

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