O Monstro e a Musa – Parte 5/12

A primeira parte deste conto pode ser encontrada aqui e a quarta aqui.

 

– Precisamente! O carvão também é um recurso finito. Ainda há poucos minutos nos relembrou as consequências de uma guerra motivada por escassez energética. Quando o carvão não for suficiente para todos, haverão outras guerras – concluiu o líder, com um gesto de triunfo.
– Isso é alarmismo! Se bem me lembro, um dos génios e visionários da era nuclear disse que não sabia como seria a terceira guerra mundial, mas que a quarta seria com paus e pedras. Se compararmos o potencial bélico dessas nações beligerantes durante o grande cataclismo e o que possuímos agora, provavelmente eles nos chamar-nos-iam de primitivos – interveio Aristides, colocando um braço em frente de Artur como que impedindo-o simbolicamente de avançar.
– Meu caro Aristides, eu nunca esperei que levasses esta ameaça a sério – revelou, fazendo-lhe um sinal para que baixasse o braço.
De seguida, virou-se para os restantes.
– Não nos iludamos ao pensar que, por via das restrições tecnológicas, uma guerra à escala mundial não será tão terrível como a anterior. Pelo contrário, será mais longa e matará mais pessoas. Temo que qualquer nação que enfrente a obliteração possa cair na tentação de desenvolver e usar tecnologia proibida. Se isso acontecer, a ameaça de extinção pairará mais uma vez sobre a nossa espécie.
Walter não precisava de mais explicações, compreendera finalmente a razão para o seu sequestro. Artur sabia muito bem o que fazia, pois só um inventor com a sua especialidade e bastante capacidade poderia resolver o problema.
– Exijo saber se este homem pode ou não resolver o problema! Já estamos a prolongar esta conversa há demasiado tempo – protestou Xavier, visivelmente impaciente.
– Xavier, espera um momento, já iremos abordar esse assunto. Caro doutor Ramos, peço desculpa pela interrupção. Consegue estimar quantos habitantes tem o castro?
– Estimei que haverá cerca de vinte a trinta mil.
– É uma boa estimativa. Se juntarmos os que vivem no vale e as vilas satélite, são cento e dez mil habitantes, segundo o último censo. Consegue estimar quanto carvão é necessário por ano para manter este nível tecnológico?
Walter fez o cálculo de cabeça, ficando mais consciente do problema.
– Um quarto de milhão de toneladas por ano. Quantas minas activas possuem?
– É uma estimativa admirável, pois está muito perto dos valores oficiais. Em todo o território, há apenas uma mina – confessou Artur com um sorriso amargo. – A capacidade foi avaliada e o carvão nesse jazigo situa-se entre um milhão e um milhão e meio de toneladas. Ou seja, há energia para mais quatro a seis anos. A questão que está na sua cabeça é muito facilmente respondida, foram feitos grandes esforços para encontrar outras minas e todas praticamente infrutíferas. O carvão encontrado nos últimos dez anos não dá sequer para suprir as necessidades energéticas desta cidade durante meio ano. Aristides, conta-lhe o que ficou decidido no último concílio estratégico-militar do castro.
– Não considero apropriado contar a um estranho as nossas resoluções internas, quando nem sequer o fazemos ao comum dos cidadãos – objectou outro dos assessores, um homem baixo e redondo.
– Fábio, ele precisa de saber para melhor desempenhar o seu trabalho. Aristides, por favor, explica ao senhor Ramos quais as consequências da escassez energética.
– Entraremos em guerra, tentando expandir o território para Norte, de modo a obter as minas de carvão aí existentes.
– Porquê? – questionou Artur de um modo retórico.
– Porque caso não o façamos, estimamos que metade da população diminua pelo menos um terço, nos dez anos seguintes ao fim do carvão.
– E quais são as reservas existentes a Norte? – insistiu o líder do castro.
– Estimamos algo entre sete a oito toneladas.
– Como vê, caro doutor Ramos, a guerra seria apenas uma solução temporária. É necessário aceder e controlar outras formas de energia. Agora percebe porque está aqui? Pode explicar a estes senhores qual é a sua especialidade?
O inventor olhou os adjuntos com confiança no olhar. Passou a mão pelo cabelo para afastar o nervosismo, como costumava fazer antes de qualquer apresentação importante na Academia Imperial de Ciências.
– Eu estudo a electricidade e o seu potencial para substituir o carvão como fonte de energia.
Nesse momento, Walter ficou estupefacto com a sua própria reacção; a escolha de palavras e gestos de Artur tinham sido impressionantes. O líder do castro encontrara a alavanca certa.

A sexta parte pode ser encontrada aqui.

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