Chá de Domingo #65: Estará a Ficção Especulativa a Morrer em Portugal?

Um tema pertinente de ser discutido, por afectar leitores, escritores e editores.

 

Apesar de ser uma das questões que mais me têm dado voltas à cabeça, só quando li estes dois artigos é que tive uma nova visão do assunto:

 

Depois destes artigos, coloca-se a pergunta: estará a Ficção Especulativa a morrer em Portugal?

O primeiro artigo é recente, enquanto o segundo já foi escrito há mais de sete anos, embora continue bastante actual. O que se tem feito pela ficção especulativa em Portugal, tem-no sido mais a nível amador do que profissional. Há alguns projectos que se esforçam por publicar e divulgar o que se vai fazendo em Portugal, com uma ajuda preciosa de alguns bloggers. Podem saber um pouco mais sobre estes dois projectos (Imaginauta e Fantasy and Co) nesta e nesta ligação. Há também a Corte do Norte, que se dedica ao Steampunk e à organização da sua convenção anual e merece que lhe dedique um artigo (que em breve espero poder escrever). E para além disso?
Só a Saída de Emergência continua a apostar maioritariamente no género. As outras editoras publicam um livro ou outro, que entra nas prateleiras para logo sair. Um escritor deste género não tem grandes hipóteses de chegar às lojas. Tanto porque poucas editoras apostam neles, como porque as que apostam, em geral, não tem capacidade de distribuir e publicitar convenientemente o livro. Há sempre outras editoras que até publicam e até colocam nas prateleiras de algumas lojas, mas exigem uma contrapartida financeira do autor ou auto-financiam-se através do Crowdfunding.

Recordo-me, assim de repente, de dois projectos que trabalhavam nesta área e deixaram de existir: a Lusitânia, Nanozine. Ambas aceitavam textos dos autores e depois de uma selecção, publicavam-nos. Uma tinha formato de revista e outra de ebook, uma era a preço de custo e outra grátis. Com várias diferenças entre elas, a verdade é que desempenhavam um grande serviço de promoção da literatura especulativa portuguesa. Posso também acrescentar a micro editora Editorial Arauto, que não se conseguiu manter por muito tempo, publicando apenas um livro de Steampunk.

Tenho de confessar que na minha experiência na Editorial Divergência nem tudo são rosas. Nem todas as antologias venderam como esperava. Umas deram prejuízo e outras apenas lucro marginal. Apesar de fazermos o nosso melhor, a crítica é implacável (e espero que o continue a ser). Se o objectivo fosse fazer dinheiro, teria escolhido o ramo errado, com toda a certeza. A fatia cobrada pelas transportadoras e pelas lojas fazem com que a possibilidade de estarmos nas prateleiras seja cada vez mais remota.

Estará a Ficção Especulativa a morrer em Portugal? A resposta é não. Sobrevive com dificuldade graças ao esforço de individuais que trabalham mais por amor à camisola. Se tem potencial de florescer? Tem sim, mas vai precisar que os leitores lhe passem a dar o devido valor.

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