A Queda de von Reichenau – parte 2/3

A primeira parte pode ser encontrada aqui.

No entanto, e apesar do optimismo, nem tudo lhe estava a correr como gostaria. Recentemente, Hitler tinha pessoalmente proposto o seu nome para Comandante Geral das Forças Armadas. A proposta agradava-lhe, entendera-a como recompensa pelo seu magnífico trabalho, mas fora recusada pelos outros oficiais mais velhos, que não aceitavam servir sob as suas ordens. Alegaram que Walter estava demasiado envolvido na política, algo que a Wehrmacht não via com bons olhos. Walter não se considerava envolvido na política, apenas achava que fazia aquilo que o dever cívico como alemão o impelia a fazer. A verdade talvez fosse que não quisessem servir sob as ordens de um general muito mais novo e, por sinal, muito mais talentoso. Por outro lado, era possível que desconfiassem que havia sido ele a dar a ordem para matar aquelas noventa crianças judias, há cerca dum ano atrás , bem como os outros judeus em Kiev, há cerca de três meses. Se algum dia estes pequenos segredos se tornassem públicos, a sua imagem no exército estaria definitivamente manchada pois, infelizmente, o exército não se regia pelas mesmas regras que a Waffen-SS, as forças armadas da Schutzstaffel, o braço armado do partido. Porém, isso não o preocupava muito. A sua folha de serviço já contava com trinta e oito anos de serviço militar, sem falhas, ao serviço da Nação, o que o tornava praticamente intocável. Definitivamente, ele não era somente mais um entre os outros, aliás, sem ele a Wehrmacht nunca teria conseguido conquistar a Polónia nem a França tão rapidamente nem com tão poucas perdas. Bastava que olhassem para o que acontecera na outra guerra. Era uma pena que a maioria deles não conseguisse, ou não quisesse, reconhecer o seu génio militar.
Ele tinha noção que não era o único que sabia o que fazia. O antigo chefe de pessoal, e agora comandante do seu sexto exército, Friedrich Paulus, tinha também um potencial muito promissor. Era organizado, metódico e inteligente, o que eram qualidades fundamentais no seu ponto de vista. Se algum dia deixasse o comando deste teatro de operações, Paulus seria provavelmente o seu sucessor. Walter conseguia ver isso cada vez que discutia as possíveis estratégias a adoptar com Friedrich. Paulus era possivelmente uma das poucas pessoas que compreendia e conseguia aplicar correctamente todos os conceitos estratégicos de uma guerra moderna. Quando ele organizava qualquer coisa, normalmente decorria sem incidentes.
Outro dos problemas que o preocupava era o dos contra-ataques russos, que estavam a ser particularmente intensos e organizados desde as últimas semanas. O Inverno estava a ser especialmente rigoroso, provavelmente o mais rigoroso das últimas décadas, com um frio incrivelmente intenso e paralisante. Na verdade, Moscovo só escapara à sua queda devido ao Inverno, que viera mais cedo que o normal. Os motores dos tanques e dos aviões congelaram, enquanto os soldados se viam forçados a cavar trincheiras para se abrigar do frio. A Alemanha não conseguia usar totalmente o seu potencial militar nestas condições, que se assemelhavam em muito às condições de há trinta anos atrás, mas isso não seria um problema sem solução. A próxima Primavera traria, com o fim do frio, um reiniciar das operações ofensivas e, consequentemente, o termo da ditadura bolchevique de Estaline.
Terminou a sua caminhada e voltou para o seu escritório. Não gastou muito tempo a mudar da roupa de desporto para o seu uniforme oficial, colocando por último o monóculo no olho direito. De seguida, sentou-se na sua cadeira almofadada, começando a estudar o mapa que jazia estendido sobre a mesa. Tirava notas no seu bloco, estudando as diversas possibilidades de movimentação, ataque e defesa das diversas divisões presentes no terreno.
Nascera em Karlsruhe, filho duma família prussiana com uma longa linhagem nobre. Era geralmente conhecido como Generalfeldmarschall von Reichenau, o homem que subjugara a França em cinco semanas, um feito que ficaria eternamente na história da Alemanha e do mundo. Walter nunca conseguia disfarçar o orgulho que sentia ao imaginar as crianças dum futuro longínquo a aprenderem na escola a história dos seus grandes feitos, como hoje aprendiam os feitos do Imperador Barbarossa.
Às doze horas em ponto, dirigiu-se para a sala de jantar para tomar o almoço. Comia habitualmente sozinho pois era raro ter companhia que estivesse no seu patamar social. Em muitos países, a ascendência já não contava em nada mas, felizmente, a Alemanha era uma excepção. A Rússia não era e isso era uma de muitas razões para a odiar.
Assim que se sentou, o cozinheiro começou a servir-lhe o almoço. Era lombo de porco assado no forno, acompanhado por batatas. Para acompanhar, iria beber um bom vinho tinto francês.
Walter comeu e bebeu com gosto, até que uma dor fortíssima o atingiu na cabeça deixando-o inconsciente.

A terceira parte está disponível aqui.

Este capítulo foi retirado do primeiro livro da trilogia de Estalinegrado, porque não estava relacionado directamente com as personagens principais. Apenas o publico aqui num exercício de pesquisa e ambientação do resto do livro.

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