A Escuridão – Parte 3/5

A primeira parte está disponível aqui e a segunda parte pode ser encontrada aqui.

Os habitantes do abrigo reuniram-se à volta da vítima. Um único buraco na têmpora da sexagenária denunciava a causa da morte. Sussurravam entre eles como tal poderia ter acontecido. Sabiam que o eco se iria multiplicar num espaço fechado, não dando qualquer hipótese que um disparo ocorresse incógnito.
– Eu sugeria que se revistasse os quartos, para encontrar a arma do crime – sugeriu uma mulher.
– E se foram os soldados?
– Porque haveriam de fazer isso?
O tenente ergueu-se, enfrentando-os.
– Eu não tenho interesse nenhum em matar-vos e estou-me pouco lixando com quem toma as decisões. Se vocês são tão inteligentes como parecem, iriam perceber que as armas que temos têm um calibre superior à do homicídio. Quem matou esta senhora vai ser apanhado e castigado… – fez uma pausa, olhando-os nos olhos. – … com a pena capital.

 

***

 

Deixou-se cair na cama, estafado mas satisfeito. Passara o dia em frente a um ecrã, instalando o programa de simulação atmosférica. Confirmou os valores de Rita e aproveitou para passar tempo com ela. Introduziu dados nos servidores que integravam a base. Apesar do grupo de computadores servir para jogos de guerra, nada como uma limpeza ao disco e uma instalação fresca para os tornar numa ferramenta perfeita.
Mesmo depois das bombas terem parado de cair, o cenário era devastador. O fumo e as poeiras espalhavam-se nas imagens de satélite, sinal que as cidades continuavam a arder. Parecia impossível que alguém no exterior pudesse sobreviver.
Bateram de leve à porta.
– Entre – autorizou, esfregando os olhos.
A maçaneta rodou devagarinho, como se não quisesse chamar à atenção. Lembrou-se que estava no último quarto do corredor. Teve medo.
Rita esgueirou-se para o interior com um sorriso, fechando a porta com a mesma delicadeza com que a abrira.
– Então, já estás a dormir?
– Estou bastante cansado, foi um dia muito longo.
– Sim, sim, estás à espera que a Débora te venha aquecer a cama… – escarneceu, aproximando-se com passinhos pequenos.
– Não acho que ela esteja assim tão desesperada… – comentou, encolhendo os ombros e levantando-se.
– Como a vi sair do teu quarto hoje de manhã…
– Não fizemos nada disso.
– Não, desculpa estar a meter-me na tua vida…
– Não faz mal…
Ela lançou-se num abraço apertado, começando a soluçar no seu ombro. Agarrou-a com força, com na esperança que a ajudasse.
– Tenho medo… Estamos aqui presos com um assassino…
– Tem calma, aqui dentro não irá longe…
Ela interrompeu-o com um beijo nos lábios. Rui deixou que as mãos descessem e obedecendo ao impulso, há muito reprimido, derrubou-a sobre a cama. Viu nos olhos dela que queriam o mesmo.

 

***

 

Regou os cereais com sabor a papel com o leite em pó aguado. Agarrou na taça e procurou um lugar no refeitório. Encontrou Débora sozinha a um canto e quis juntar-se a ela.
– Bom dia – cumprimentou-a com um sorriso.
Ela levantou a cabeça e encarou-o com uma expressão triste. Percebeu que estivera a chorar.
– Posso sentar-me aqui contigo?
– Tanto me faz – respondeu-lhe, voltando os olhos para o prato.
Sentou-se em silêncio. Depois de engolir duas colheradas daquela mistura horrível, decidiu animar a amiga.
– O que se passa?
– Ainda tens a lata de me perguntar o que se passa?
– Não estou a perceber!
– Julgava que eras mais inteligente!
– Porque é que não me explicas?
– Como se tu não soubesses! Se calhar achas que eu sou parva, só pode! Gostava é que tivesses sido sincero comigo desde o início.
– Calma!
– Calma o tanas! Andas a pensar mais com a cabeça de baixo do que com a de cima, por isso é que não percebes nada!
– Estás a falar do quê?
– E continuas, pensas que eu não sei que passaste a noite com a Rita? Agora já sei porque é que te fizeste desentendido aos meus avanços, estavas de olhar fisgado na loira. É o decote dela, não é, por ser mais pequeno que o meu?
– Mas…
– Já percebi, é a sobrevivência do mais forte. Espero que os teus genes passem à geração seguinte!
Débora levantou-se e saiu da sala, sem lhe dar tempo de responder.

 

***

 

Rui fixou os resultados no monitor. Não acreditou nos valores das colunas de números brancos sobre o fundo preto. Verificou mais uma vez os parâmetros e submeteu de novo a tarefa, pedindo uma previsão para a próxima centena de anos.
Ao sair da sala de controlo, passou por ele um grupo bastante agitado.
– Anda, vai haver uma reunião no refeitório, é obrigatória a presença de todos – explicou um deles.
Seguiu-os, tentando captar os rumores e percebendo que não sabiam mais do que ele. A maioria dos residentes já estava sentada nas cadeiras. O tenente permanecia de pé e em silêncio. Assim que a última pessoa entrou, um soldado trancou a porta e ficou a guardá-la.
– O que vem a ser isto? – reclamou um dos mais velhos.
– É para vosso próprio bem – explicou fazendo sinal ao soldado que guardava a outra porta.
Pouco depois uma maca coberta com um lençol branco entrava na sala. Com um gesto vagamente teatral, puxou a cobertura, revelando o corpo do motorista.
A quarta parte está disponível aqui.
Este conto foi originalmente publicado no blogue Fantasy & Co.

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