A Próxima Estação

Como prometido aqui esta é a versão portuguesa do conto.

Desde que acordara, naquele dia, que me parecera somente mais uma manhã como tantas outras. Porém, mal adivinhava o que estava prestes a presenciar.
Durante aqueles dias de Fevereiro, as temperaturas negativas assolavam a cidade ao longo de todo o dia. Durante a maior parte do ano, dias cinzentos e nublados eram a norma. As condições climáticas da cidade eram famosas por causarem uma onda massiva de depressão durante os meses mais frios. Claro está que eu não era excepção, passando grande parte do ano apático e desanimado.
Ao sair, apercebi-me que nevava. A onda gélida envolveu-me e o ar frio encheu-me os pulmões, não sendo das sensações matinais mais agradáveis que já havia sentido. Um manto cobria todo o espaço envolvente, enquanto pequenos flocos esvoaçavam livremente ao sabor do vento. A vontade de enfrentar aquele frio era nula. A vida era tão mais fácil dentro dos cobertores, por entre o meu mundo de sonhos. Por um momento, ponderei voltar para trás. Contudo, um vislumbre das consequências de chegar atrasado, impeliram a afastar-me mais do meu pequeno paraíso.
Ao afastar-me do edifício, a intensidade do nevão aumentou, já que este bloqueava grande parte da intempérie. Inclinei a cabeça e protegi-a com a mão enquanto a neve me castigava a face, em especial os olhos.
Da primeira vez que vi neve, recebi-a como a coisa mais maravilhosa que me havia acontecido. Estava na rua quando os primeiros flocos caíram e a magia do momento pareceu que iria captar o sentimento para o resto da minha vida. No entanto, passado pouco mais de dois meses, já não conseguia simplesmente suportá-la, com se aquele sentimento de harmonia pertencesse a outra vida. Passei pelas bicicletas, empilhadas junto à entrada, as quais ninguém se atrevia a usar com aquele temporal. Felizmente, ao contrário do dia anterior, alguém limpara o passeio e espalhara sal, o que certamente me poupou a várias quedas.
À medida que avançava, havia mais gelo e mais lama, de modo que tinha de tomar atenção constante para não cair. A caminhada não demorou mais do que cinco minutos, contudo, na minha mente pareceu demorar horas. Cheguei completamente enlameado e enregelado.
À entrada do metro, enquanto sacudia a neve que trazia sobre mim, reparei num anúncio afixado num painel. Já o tinha visto tantas vezes que normalmente nem reparava nele. Tratava-se de um morango envolvido por um preservativo, com o objectivo de alertar para o perigo da sida.
Desci as escadas, galgando dois degraus de cada vez, pois o som de fricção com os carris indiciava a recente chegada do metro. Porém, não cheguei a tempo. O ruído que ouvira fora afinal da partida, obrigando-me assim a esperar pelo próximo comboio. Verifiquei as horas, iria chegar bastante atrasado, constatei. Um sentimento de revolta aflorou-me ao peito, só me apetecendo barafustar devido à frustração que sentia.
A minha atenção foi atraída para uma jovem mulher. Não era a primeira vez que a via ali, pois desde há cerca de uma semana que a encontrava frequentemente sentada naqueles bancos, como se esperasse algo. Vestia umas calças de ganga, um comprido casaco bege e usava o seu cabelo loiro atado num rabo-de-cavalo. O que mais me intrigava na sua figura era a pele pálida e os olhos inchados de chorar. Naquele dia não era diferente, encontrando-a enrolada sobre si mesma.
– O que se passa? – perguntei, quebrando a rotina.
Ela retirou a cabeça de entre os braços e olhou-me nos olhos. A sua expressão dançou de assustada para agressiva.
– Vai-te foder! – insultou-me, com um gesto de desprezo.
Naquele momento, tive o impulso de me afastar e fingir que aquilo nunca havia acontecido, chegando mesmo a dar um passo atrás.
– Só te quero ajudar…
– Eu não preciso da tua ajuda! – exaltou-se, elevando a voz.
Por essa altura, já uma dúzia de pessoas tinha parado em redor, observando a situação.
– Qual é o teu problema? – insisti pela última vez.
– Quando se está morto, já não se tem problemas – respondeu-me com um sorriso que trazia um traço de histerismo.
A afirmação enigmática deixou-me extremamente confuso. Tentei ler-lhe o rosto, contudo, nele só encontrei um ar de resignação.
– Deixa-me ajudar-te…
– Ninguém me pode ajudar… – retorquiu, mostrando-se angustiada.
– Mas…
– Desaparece! Mete-te na tua vida! Deixa-me em paz! – gritou ela num tom agressivo e completamente fora de si.
Dei outro passo atrás. Decidi que não queria fazer mais parte daquele espectáculo, que já tinha vários espectadores. Olhei para o painel luminoso, vendo lá a minha escapatória. O metro deveria chegar à estação dentro de alguns segundos. Ela voltou a enterrar a cabeça no meio dos braços.
O som que se seguiu era característico. O metro entrou na estação acompanhado por uma grande deslocação de ar. Virei-me a tempo de ver o transporte a imobilizar-se. As portas abriram-se e algumas pessoas saíram. Fui dos primeiros a entrar, tendo direito a um lugar sentado, extremamente invulgar.
– Por favor, afaste-se do metro – pediu a voz automática do comboio.
Ouviu-se um apitar característico, enquanto as portas se fechavam. Voltei a olhá-la e, nesse momento, ela levantou a cabeça e devolveu-me o olhar com tal intensidade que não pude evitar estremecer. A sua expressão denotava uma calma como nunca tinha visto. A carruagem começou a movimentar-se lentamente, contudo depressa acelerou. Uns segundos depois, tanto ela como a estação tinham desaparecido do meu campo de visão.
A situação deixou-me pensativo, pois não fazia ideia do que se passava com ela. Era notório que precisava de ajuda mas, se não a queria, como é que alguém poderia intervir?
A meio do caminho, tive de abandonar o metro, pois a linha estava interrompida devido a obras. A partir dali tinha duas opções: mudava de linha e dava uma volta à cidade ou apanhava o autocarro de ligação. Nenhuma das opções me agradava particularmente, todavia optei pelo autocarro, por pensar que seria mais rápido. Mais do que enfrentar o nevão, detestava aquelas mudanças à minha rotina. Como era de esperar, acabei por chegar atrasado.
Durante a manhã, esqueci o sucedido. Estava convencido de que a maneira como ela me tratara não deixava grande espaço para simpatia. Ao meio-dia, tive oportunidade de voltar a casa. O nevão tinha cessado e a maior parte das ruas estava já limpa.
De modo a evitar o frio, decidi realizar o percurso mais longo de metro. Aproveitei para ler um livro e abstrair-me da realidade.
Uma estação antes do meu destino, o metro parou e fui obrigado a sair. A informação de que a linha estava cortada apanhou-me de surpresa, já que não havia qualquer manutenção planeada para aquele troço. Subi as escadas, em direcção à parte mais comercial daquela zona. Ao olhar a quantidade de pessoas que esperavam o autocarro, fiquei extremamente desanimado, já que implicava que o mesmo não passava por ali frequentemente.
Decidi então fazer o restante quilómetro a pé. Relembrei as primeiras vezes que havia tentado aquele caminho e que me havia perdido. Num acto de bom senso, retirei o mapa da minha sacola, fazendo-me ao caminho logo de seguida.
Recomeçou a nevar. Em ambos os lados da rua, as lojas de roupa e telemóveis fervilhavam de actividade. Nem o mau tempo impedia as pessoas de comprar e consumir, reflecti amargamente, que vida tão infeliz e fútil.
Um quarto de hora depois, cheguei à minha estação. Ignorando o frio, decidi não resistir à curiosidade e aproximar-me dum grupo de pessoas na paragem de autocarro.
– Desculpe, o que é que se passou para a linha de metro estar interrompida? – perguntei a uma das pessoas.
Recebi vários olhares de indiferença e mau humor. Era óbvio que estavam bastante chateados por lhes terem alterado a rotina.
– Houve um suicídio hoje de manhã, nesta estação… – respondeu-me um homem na casa dos cinquenta.
– Uma jovem atirou-se para debaixo do metro… – acrescentou uma quarentona, ajeitando o seu cesto das compras e virando-me as costas.

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